Dragão Azul

Voltei ao mercado

Estou feliz.

Hoje voltei ao mercado. Não é todos os dias que um homem pode regressar a um lugar onde tudo está à venda, menos aquilo que realmente precisa.

Passei, ufano, por entre as bancadas de fruta. As maçãs brilhavam como se tivessem acabado de receber um subsídio. As laranjas, redondas e lustrosas, pareciam ter uma vida melhor do que a minha. Deliciei-me com as cores, aspirei os odores, deixei-me impregnar por aquela abundância toda.

Por momentos, cheguei a acreditar que ainda era rico.

Depois, lembrei-me dos preços.

Continuei.

No corredor do peixe, apaixonei-me por uma chaputa. Estava ali, magnífica, estendida sobre o gelo, com aquele olhar vazio de quem já percebeu como funciona a economia. Imaginei-a a bronzear-se no forno, a dourar lentamente, enquanto eu, finalmente, encontrava uma razão para continuar a pagar impostos.

Segui para os talhos.

Deslizei pela sua face e lavei os olhos nas coxas de galinha. Havia bifes, costeletas, entrecosto, frangos inteiros. Uma verdadeira exposição de prosperidade nacional.

Só havia um inconveniente: tudo tinha preço.

E eu tinha cada vez menos.

Meti a mão no bolso à procura de algumas moedas que tivessem sobrevivido à voracidade dos impostos, ao aumento do custo de vida e à diminuição dos salários. Nada.

Meti a outra mão.

Nada.

Revirei os bolsos, por uma questão de fé.

Foi então que percebi: estavam rotos.

As poucas moedas que ainda possuía tinham-se escoado pelo buraco da dívida ao crédito, essa maravilhosa invenção moderna que permite a um pobre comprar hoje aquilo que amanhã já não poderá pagar.

Procurei mais.

Debaixo da carteira, entre papéis velhos, recibos e outras provas de que já tive dinheiro, encontrei alguns cêntimos. Poucos. Tão poucos que quase tive vergonha de os incomodar.

Contei-os.

Voltei a contá-los.

Recontá-los não os fez aumentar, mas deu-me a reconfortante sensação de estar a gerir alguma coisa.

Davam para uma cenoura.

Uma cenoura!

Olhei uma última vez para as maçãs reluzentes.

Adeus, maçãs.

Olhei para a chaputa.

Adeus, chaputa.

Olhei para as coxas de galinha.

Adeus, coxas.

A cenoura esperava por mim.

Comprei-a.

Saí do mercado embevecido, com a cenoura na mão e a dignidade possível no bolso.

Até posso ser burro, pensei, mas já tenho a cenoura.

E, pelos vistos, isso chega para continuar feliz.

Afinal, dizem-nos que a economia está a crescer.

Eu também.

De dívida.

Voltei ao mercado.

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