O dia em que o meu avô engoliu um sapo
Conheci apenas um avô. O outro já tinha partido para outros mundos quando nasci. Mas não garanto que não o tenha encontrado noutros horizontes e que não me tenha aconselhado a entrar na sua família, até porque herdei o seu nome e apelido. Seja ou não seja, os factos que registo da memória prendem-se com as vivências com o avô José Adriano, durante o tempo que partilhámos.
O meu avô Zé, quando começou a nossa convivência, vivia num lugar ermo, um pouco afastado da povoação. O edifício mais próximo era a escola primária, situada num cabeço gémeo do da sua casa. O avô Zé era bastante sociável, mas tinha, ao mesmo tempo, espírito de eremita. Prezava a sua privacidade, longe de qualquer vizinhança.
Não me lembro de quando nem do porquê de ter começado a viver na casa do avô a tempo inteiro. Certamente foi depois de começar a frequentar a escola primária. Talvez pela proximidade desta, talvez por me darem ali mais atenção e importância do que me davam em casa dos meus pais, sempre muito ocupados com as suas tarefas. Talvez me tenha mudado quando o novo professor primário, vindo de muito longe, perguntou aos alunos quem vivia naquela casa. Um primo meu, mais expedito, respondeu:
— É o meu tio.
Mas outro colega acrescentou:
— É o avô do Zé.
O senhor professor encarregou-me de ir buscar um copo de água. Na altura, não existia água potável na escola, nem água engarrafada. Assim, cada vez que o senhor professor tinha sede, lá ia eu buscar a água que lhe matava a sede, no intervalo de outras bebidas mais calóricas que costumava beber.
A avó reservou até um copo especial, de entre os poucos que possuía. A água, vinda de um poço e guardada numa vasilha de barro, estava sempre fresquinha e não tinha aditivos químicos. Percorria o espaço entre a casa e a escola com mil cuidados, para não entornar a água nem partir o copo de vidro. Penso que, mais do que sede, o senhor professor se viciou naquela água, que lhe era dada com muita boa vontade. Só uma vez percebi que o avô a deu a contragosto.
Estávamos em 1958, no dia do ato eleitoral para a Presidência da República, entre Américo Tomás e Humberto Delgado. A votação decorria na escola primária. A meio da tarde, apareceu o senhor professor a pedir um copo de água.
O meu avô estava a trabalhar no seu mister de carpinteiro, completamente abstraído do ato de votar. Republicano convicto, que assistira ao nascimento da República e fizera parte da Guarda Republicana, embora por pouco tempo, sabia que as eleições não eram livres. As listas da oposição nem sequer estavam na mesa de voto, e quem quisesse votar contra o regime tinha de levar consigo a lista que lhe fora colocada, na noite anterior, por debaixo da porta, e que, até, nem tinha as mesmas dimensões.
O senhor professor, que estava na mesa eleitoral, bebeu com gosto o seu copo de água e, a seguir, dirigiu-se ao avô:
— Então, senhor José, já foi votar?
O avô, que nunca tivera essa intenção, embatucou.
— Não, senhor professor António. Tenho estado muito ocupado.
— Então não se atrase. Fico à sua espera.
O avô ficou pior que cão raivoso. Parou o trabalho, atirou as ferramentas ao chão e disse, em altos gritos:
— Eu vou lá, contrariado, e é por causa deste!
E referia-se à minha pessoa.
Claramente, sabia do poder dos apoiantes do regime e não quis arriscar algo que me pudesse prejudicar. Quando voltou, vinha mais calmo e, como que a justificar aquele ato de contranatura, disse-me:
— Sabes, Amélia, quer fosse, quer não fosse, dava o mesmo resultado. Eles contavam na mesma o meu voto.
Mais tarde, percebi que tinha razão. Os votos da oposição, ou pelo menos a sua grande maioria, foram queimados numa fogueira, nas traseiras da escola. Como prova, apenas ficaram cinzas.
Quando concluí o ensino primário, o senhor professor conseguiu que um seu conhecido, que lhe devia favores e que possuía, numa aldeia próxima, uma pequena escola com paralelismo pedagógico com o Liceu, me aceitasse como aluno, sem pagar a mensalidade elevada e incomportável para os meus pais.
Na altura, isso até me desagradou, pois queria ingressar no mundo do trabalho, como era comum naquela época. No entanto, foi a oportunidade de seguir um pouco mais além, graças ao senhor professor, que fez enorme pressão para que me matriculasse.
O nosso quotidiano era difícil, e a instrução constituía uma porta para sairmos daquele microcosmos de pobreza. Pôr em causa os detentores do poder e do saber não era aconselhável. Como hoje se diz, e para o que pensava ser o meu bem, o avô engoliu um grande sapo.
Tanto mais que essa forma de estar nunca tinha feito parte da aventura que foi a sua vida de liberdade pessoal.
Um ato que me ficou gravado na memória e que, no nosso dia a dia, não deixa de estar presente: aquilo a que chamamos passado, para que possamos vivê-lo noutra perspetiva