Dragão Azul

O senhor professor e o baile dos moços pequenos.

O senhor professor e o baile dos moços pequenos.
Na aldeia onde nasci e onde passei a infância, a vida tinha uma cadência serena. Era um microcosmo com vida própria, capaz de se autossustentar, sem as interdependências que hoje existem. A população dedicava-se, maioritariamente, à produção agrícola de subsistência e autossuficiência. A ligação com o mundo exterior era reduzida, também devida aos meios de comunicação. Quando nasci, foi inaugurada a ponte que ligava as duas margens da ribeira na estrada que conduzia ao litoral e ao Alentejo. Ainda me lembro de ser alcatroada por processos muitos rudimentares. A vida de trabalho pela sobrevivência ocupava a maior parte do tempo dos aldeões. À pobreza chamada de remediada, poucos escapavam. Os ditos ricos seriam hoje simplesmente pobres. Este modo de vida era aceite com naturalidade, e o trabalho como uma virtude. Mas na sua simplicidade as pessoas não prescindiam dos seus tempos lúdicos. A ida à taberna depois de jantar, e aos domingos, para conviver com os seus conterrâneos, para beber um ou mais copos de vinho, jogar às cartas, ou a outros jogos tradicionais, era um escape ao trabalho diário. Os moços e as mulheres eram um mundo à parte. Estas arrumavam a casa depois do jantar e conviviam na ida ao poço para trazer água, ou na ribeira, nos locais de lavagem da roupa. Os moços pequenos jogavam ao pião, ao berlinde (riol) ás escondidas, à apanhada, e à bola. A permanência na taberna era reservada aos homens adultos. Mas havia um divertimento onde toda a população se juntava. Os bailes, coincidente com festividades nacionais ou locais, eram o local predilecto de divertimento, para todas as idades. As crianças sozinhas ou acompanhadas de familiares, também estavam presentes. Aí começavam a aprender a dar os primeiros passos de dança, ou a bailar como se dizia. E eram o sítio onde os moços e as moças, estavam juntos. Até na escola primária havia separação de sexos. O baile para os jovens mais crescidos também servia para encontros que resultavam em namoricos. Quando frequentava a escola, veio do Norte um professor beirão, com um linguajar que trocava vês pelos bês e os esses pelos xiz. Tinha alguma dificuldade em o entender. E à sua noção de moralidade muito rígida. Não nos queria ver a cirandar durante a noite, nomeadamente a frequentar locais de diversão como bailes. O medo saia da sala de aula, de tal modo, que quando o avistava na rua, mudava de direcção. Uma noite atrevi-me a sair com um grupo de outros moços, e a horas um pouco tardias, enquanto subíamos a rua principal, a fazer as parvoíces próprias da idade, deparamo-nos com o senhor professor, a desce-la. Vindo de alguma degustação gastronómica. Não o pudemos evitar: “então isto são horas de andar na rua? Voltem já para casa? Amanhã falamos. Mentalizei-me para as consequências, mas dessa vez, não aconteceu nada. Mas o senhor professor, ainda jovem, integrou-se muito bem naquela comunidade sulista. Frequentava as tabernas, participava em actividades comuns, e festividades. Quando chegou, vivia uma paixão assolapada, por uma sua conterrânea. Todos os dias recebia uma carta dessa namorada que lia, enquanto cumpríamos as nossas tarefas. Recebeu até ao dia em que se começou a interessar pelas moças da terra, e se enamorou de uma delas. Um dia, ficou de cama e essa namorada começou a ir à casa onde morava, para o tratar. Logo começaram a línguas viperinas a tfazer especulações. Fosse ou não fosse, o certo é que a noiva beirã, "bye, bye". Num baile, o senhor professor, para nos mandar sair, sem autoritarismo, inventou um processo fora do habitual. Da mesa onde tocava o acordeonista , e entre duas músicas, anunciou que na próxima dança todas as jovens/ adultas iam oferecer uma dança, aos moços pequenos, que a seguir deviam abandonar o baile. Assim se fez, que palavra de professor era sentença. As moças da nossa idade não gostavam de bailar com quem tinha os pés pesados, a não ser aquelas que tinham por nós alguma simpatia. Por isso o meu par era sempre o mesmo. Por sinal uma moça bem gira. Naquela dança especial, fui escolhido por uma prima dez anos mais velha, com as formas femininas já bem desenvolvidas. Para mim foi mais uma dança a levantar o pó do chão com pés de chumbo. Mas para a minha parceira, deve ter sido uma corveia, a puxar-me ao longo do salão de baile, na dança dos moços pequenos. Terminada a dança regressamos às nossas casas. Mas este baile ficou sempre vivo na minha memória, pela sua singularidade.

O texto tem muito interesse como memória de infância e retrato etnográfico de uma aldeia rural, e a história do professor dá-lhe um bom fio narrativo. Fiz uma revisão procurando preservar o seu tom pessoal, o vocabulário e o sabor da época, corrigindo sobretudo pontuação, concordâncias, repetições e algumas construções menos naturais.

Versão revista

O Senhor Professor e o Baile dos Moços Pequenos

Na aldeia onde nasci e onde passei a infância, a vida tinha uma cadência serena. Era um microcosmo com vida própria, capaz de se autossustentar, sem as interdependências que hoje existem. A população dedicava-se, maioritariamente, à produção agrícola de subsistência e de autossuficiência. A ligação com o mundo exterior era reduzida, também devido aos meios de comunicação existentes.

Quando nasci, foi inaugurada a ponte que ligava as duas margens da ribeira, na estrada que conduzia ao litoral e ao Alentejo. Ainda me lembro de a estrada ser alcatroada por processos muito rudimentares.

A luta diária pela sobrevivência ocupava a maior parte do tempo dos aldeões. À pobreza, que se poderia chamar de remediada, poucos escapavam. Os ditos ricos seriam hoje simplesmente pobres. Este modo de vida era aceite com naturalidade, e o trabalho era visto como uma virtude.

Mas, na sua simplicidade, as pessoas não prescindiam dos seus tempos lúdicos. A ida à taberna depois do jantar e aos domingos, para conviver com os seus conterrâneos, beber um ou mais copos de vinho, jogar às cartas ou a outros jogos tradicionais, era um escape ao trabalho diário.

Os moços e as mulheres eram um mundo à parte. Estas arrumavam a casa depois do jantar e conviviam nas idas ao poço para trazer água ou na ribeira, nos locais de lavagem da roupa. Os moços pequenos jogavam ao pião, ao berlinde (riol), às escondidas, à apanhada e à bola.

A permanência na taberna era reservada aos homens adultos. Mas havia um divertimento onde toda a população se juntava: os bailes. Coincidentes com festividades nacionais ou locais, eram o local predileto de divertimento para todas as idades.

As crianças, sozinhas ou acompanhadas de familiares, também estavam presentes. Era aí que começavam a aprender a dar os primeiros passos de dança, ou a bailar, como se dizia. E eram também o lugar onde os moços e as moças estavam juntos. Até na escola primária havia separação dos sexos. O baile, para os jovens mais crescidos, também servia para encontros que resultavam em namoricos.

Quando frequentava a escola, veio do Norte um professor beirão, com um linguajar que trocava os vês pelos bês e os esses pelos xizes. Tinha alguma dificuldade em entendê-lo. Acrescia a isso a sua noção de moralidade, muito rígida. Não nos queria ver a cirandar durante a noite, nomeadamente a frequentar locais de diversão, como os bailes.

O medo saía da sala de aula, de tal modo que, quando o avistava na rua, mudava de direção. Uma noite, atrevi-me a sair com um grupo de outros moços, a horas um pouco tardias. Enquanto subíamos a rua principal, a fazer as parvoíces próprias da idade, deparámo-nos com o senhor professor, que a descia, vindo de alguma degustação gastronómica.

Não o pudemos evitar.

— Então isto são horas de andar na rua? Voltem já para casa! Amanhã falamos.

Mentalizei-me para as consequências, mas, dessa vez, não aconteceu nada.

Mas o senhor professor, ainda jovem, integrou-se muito bem naquela comunidade sulista. Frequentava as tabernas, participava nas atividades comuns e nas festividades. Quando chegou, vivia uma paixão assolapada por uma sua conterrânea. Todos os dias recebia uma carta dessa namorada, que lia enquanto cumpríamos as nossas tarefas.

Recebeu cartas até ao dia em que começou a interessar-se pelas moças da terra e se enamorou de uma delas. Um dia, ficou de cama, e essa namorada começou a ir à casa onde morava para o tratar. Logo começaram as línguas viperinas a fazer especulações.

Fosse ou não fosse, o certo é que a noiva beirã recebeu um "bye-bye".

Num baile, o senhor professor, para nos mandar sair, sem recorrer ao autoritarismo, inventou um processo fora do habitual. Da mesa onde tocava o acordeonista, entre duas músicas, anunciou que, na próxima dança, todas as jovens e mulheres adultas iriam oferecer uma dança aos moços pequenos, que, a seguir, deveriam abandonar o baile.

Assim se fez, que palavra de professor era sentença.

As moças da nossa idade não gostavam de bailar com quem tinha os pés pesados, a não ser aquelas que tinham por nós alguma simpatia. Por isso, o meu par era sempre o mesmo. Por sinal, uma moça bem gira.

Naquela dança especial, fui escolhido por uma prima dez anos mais velha, com as formas femininas já bem desenvolvidas. Para mim, foi mais uma dança a levantar o pó do chão com pés de chumbo. Mas, para a minha parceira, deve ter sido uma corveia, a puxar-me ao longo do salão de baile, na dança dos moços pequenos.

Terminada a dança, regressámos às nossas casas. Mas este baile ficou sempre vivo na minha memória, pela sua singularidade.

Uma nota: mantive expressões como “moço pequeno”, “bailar”, “línguas viperinas”, “corveia” e “bye-bye”, porque contribuem para a personalidade e autenticidade do relato. Também preservei o humor discreto do episódio final.

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