Dragão Azul

Hortense e os Namorados que Cairam ao cais

Hortense e os Namorados que Cairam ao cais

Estávamos no início dos anos cinquenta do século XX quando conheci a prima Hortense. Era então um fedelho que ia fazer o exame da quarta classe, na escola da sede do concelho. Vindo de uma aldeia próxima e dadas as dificuldades de deslocação, pois havia apenas raras camionetas de passageiros, hospedámo-nos em casa de familiares que viviam na histórica vila de Castro Marim, vigiada pelo seu centenário castelo.
A minha mãe preparou-me como se fosse terminar um curso de grande valia. Verdade seja dita que concluir o ensino primário, para os rapazes do mundo rural, já representava um passo de gigante em relação aos seus progenitores. Por isso, fez questão de me apresentar com um fatinho digno da ocasião. E lá fiz o exame, sem distinção, do qual guardo poucas memórias. Mas não é esse o assunto que me leva a escrever esta recordação.
A casa onde nos hospedámos ficava numa rua nas traseiras do velho castelo que, durante séculos, defendeu a fronteira sul. Era um local sossegado, onde o silêncio apenas era interrompido pelo canto das aves do sapal. Ao fim da tarde, porém, um estranho pregão cortava a quietude:
— Séeeeeeeecuuulo!
O ardina local, numa voz esganiçada, trazia as notícias do mundo no único jornal que chegava àquele lugar. O pregão era tão estridente que ainda hoje o consigo ouvir.
A família que nos acolheu tinha oito filhos e vivia numa grande casa térrea. Oito filhos, mesmo numa época de contraceção rudimentar, pareceu-me um exagero. Eu era filho único e, na minha aldeia, a média rondaria os três filhos por casal. Oito era quase um recorde. Eram sete raparigas e, finalmente, o tão desejado filho varão.
A mais velha, Hortense, já na casa dos trinta anos, tinha em frente da habitação um pequeno espaço onde exercia a profissão de cabeleireira, numa altura em que poucas mulheres cuidavam regularmente do cabelo. Fazia sobretudo as chamadas «permanentes» às senhoras, pelo menos às pertencentes aos estratos sociais mais elevados.
Inácio, o pai daquela filharada, era industrial e proprietário de fornos de cal. A família gozava de um estatuto social acima da média, mas apenas o filho frequentava o liceu. As raparigas, como era habitual na época, estavam destinadas a constituir família e a desempenhar o papel de donas de casa. Tanto quanto sei, foram casando, mas Hortense permanecia solteira.
Um dia, numa conversa entre adultos, enquanto penteava uma cliente, ouvi-a comentar, com alguma mágoa, que gostaria de ter continuado os estudos. E rematou com uma frase que nunca mais me saiu da memória:
— Sinto-me envelhecer à espera de um homem para casar.
O tempo foi passando e, como se dizia por aquelas bandas, «os namorados caíram ao cais».
Quem caía ao cais, naquela terra de rios e salinas, perdia-se na profundidade das águas e não voltava. Era uma expressão dura, mas expressiva, para traduzir o destino de tantos homens. Entretanto, os tempos começavam a mudar. Ao fim do dia, na estrada que seguia para Vila Real de Santo António, viam-se muitas raparigas a regressar de bicicleta, depois de um dia de trabalho nas fábricas da indústria conserveira. Como Hortense, pedalavam pela vida, antes que os namorados também caíssem ao cais.
Anos mais tarde, a imaginação fez o resto. Nunca assisti, naturalmente, a semelhante conversa; mas gosto de imaginar que terá sido mais ou menos assim.
Imaginei o primo industrial a deitar-se, depois de um dia de duro trabalho. Despia a roupa, tirava as ceroulas e dizia à mulher, já meio adormecida:
— Odete.. arregaça a combinação e põe-te a jeito...
— Ó homem, outra vez?
— Já sabes que ainda não desisti de ter um rapaz.
— Que teimosia! Já temos sete filhas maravilhosas... e uma já está em idade de casar. Talvez venha um neto...
Mal as palavras eram ditas, já o industrial Inácio estava pronto para cumprir a sua missão.
Veio mais uma gravidez e Inácio rejubilou.
— É desta! É desta, Odete!
— Quem sabe? — dizia a mulher. — Desta vez os enjoos são diferentes e o bebé mexe-se muito mais.
E foi. Finalmente nasceu o tão desejado varão.
Houve grande festa naquela casa. O rapaz, tratado como um príncipe, trouxe enorme alegria à família.
Hortense, juntamente com as irmãs mais velhas, tornou-se uma segunda mãe do pequeno, porque mãe biológica dificilmente seria. Os namorados — e os prováveis pais dos filhos que nunca teve — pareciam, na sua imaginação, ter ficado para sempre afogados.
Talvez tenha surgido esse príncipe tardio. Gostava de acreditar que sim. Mas nunca o soube.
O que sei é que, naquela terra de rios e salinas, nem todos os namorados caíam ao cais. Alguns eram apenas levados pela corrente da vida, deixando na margem mulheres como Hortense, à espera de um barco que nunca atracava.

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