Dragão Azul

a parteira da aldeia

A parteira de aldeia

No longínquo ano em que nasci, numa aldeia portuguesa do interior sul do país criado pelo mar, entrava-se neste mundo, longe dos grandes centros urbanos, no local de residência, na casa onde se vivia. Muitas vezes, na mesma cama em que se gerara. Maternidade era uma palavra quase desconhecida.

Nesse dia invernoso, pelo que me contaram, pois não me lembro, saí da barriga da minha mãe com a ajuda de familiares e de uma parteira improvisada que ainda conheci, de seu nome Sebastiana. Nasci eu e toda a turma dessa época, das anteriores e ainda de algumas posteriores. O meu irmão, anos mais tarde, passou pelo mesmo processo.

A ti Sebastiana era a parteira sem diploma da aldeia. Porque tinha jeito, porque tinha aprendido com alguém e porque tinha ganho experiência na especialidade, na arte de bem ajudar a parir. Não posso garantir, porque não pedi essa informação em devido tempo, mas estou convicto de que esteve presente em muitos partos, de gente da minha geração e de outras, naquela aldeia. Nos locais mais afastados da freguesia, que eram distantes e onde as deslocações eram difíceis, possivelmente haveria outras “tias Sebastianas”.

Sobretudo a partir dos anos 70, com a criação do Serviço Nacional de Saúde, alargou-se a rede assistencial e as maternidades cresceram como cogumelos. A partir dessa época, tornou-se normal nascer numa maternidade, com apoio médico e acompanhamento da gravidez. Foi um salto qualitativo que salvou vidas, sobretudo nos partos mais complicados.

Nos últimos tempos, o SNS foi-se degradando por razões que, só por si, exigem estudo, mas, melhor ou pior, foi dando apoio aos nascimentos com boa qualidade. Mais recentemente, o SNS entrou numa rota perigosa, o que se tem refletido nos serviços prestados. Fala-se da falta de médicos, do crescimento dos hospitais privados e, nos últimos anos, de uma incompetência política gritante no topo da pirâmide.

Assim, vamos assistindo a parturientes perdidas num labirinto de maternidades fechadas. Assim vão nascendo crianças em trânsito para os hospitais, em casa, como nos velhos tempos. E até na rua, como aconteceu perto do sítio onde habito. Tudo correu bem, com a ajuda de familiares e de um parteiro improvisado, um “ti Sebastiana” sem experiência.

É lícito perguntar: como chegámos aqui? Há fatores estruturais e conjunturais, e a análise não pode ser simplista. Mas arrisco dizer que a equipa que dirige a saúde, por incompetência e compadrio, desmantelou o que funcionava bem no SNS, sem criar qualquer alternativa.

Voltamos à parteira de aldeia?

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