Surfista me confesso.
Não que me atreva a surfar ondas de trinta metros na Nazaré. Para isso já lá está o McNamara, e eu não gosto de fazer concorrência a quem sabe. Prefiro, modestamente, surfar a Nazaré.
Explico-me: o meu mar é uma cama, e a minha onda, uma mulher. Grande ou pequena, cheia ou esguia, pouco importa. O que conta é que goste de ser surfada — e que saiba levantar-se.
Armo a prancha com a solenidade de quem se prepara para uma viagem sem destino. Aliso a praia, afino os sentidos e espero. Espero que a onda se levante, lenta e insinuante, como quem acorda sem pressa de revelar o corpo.
Subo-a com cuidado, para não lhe quebrar o encanto nem lhe roubar o fôlego. Sem rebocador, sem atalhos, apenas com a força dos braços e a cumplicidade da maré. Inspiro o seu odor salgado, marítimo, profundo, como quem procura no ar a coragem necessária para continuar. Depois, provo-lhe o sabor — esse gosto natural de sal e mistério que nenhuma água doce consegue imitar.
Cavalgo a onda até à crista, atento às suas mudanças de humor, evitando perder-me nas suas ondulações. Deixo-me levar, absorver, envolver. Mergulho nas suas entranhas de água salgada, mas sem jamais largar a prancha, porque todo o surfista sabe que há prazeres que exigem equilíbrio.
Depois, faço a descida. Devagar. Sem ansiedade de chegar ao fim. Afinal, uma boa onda não se mede pela rapidez com que termina, mas pelo tempo que nos consegue fazer esquecer que existe uma praia à nossa espera.
Por fim, a onda deposita-me suavemente na areia. Cumprida a sua missão, regressa ao mar, às suas origens, para se recompor, ganhar força e voltar a nascer.
Eu fico. Respiro. Recupero energias.
Até à próxima onda.
É assim a vida do surfista. Há dias em que o mar se agita, as marés ganham vida e não há mãos que cheguem para tantas ondas. Noutros, resta esperar. Sentado, paciente, com uma paciência de Job, até que o mar saia da pasmaceira e se digne a oferecer alguma coisa.
Porque esta é a regra fundamental da surfagem: estar sempre atento.
Afinal, a onda pode voltar.
Mas nunca passa duas vezes.