Dragão Azul

Palavras de escárnio e maldizer

Sócrates — Imagina, meu caro Rousseau, que te enganaste em relação ao teu bom selvagem que a sociedade degenerou. O facto é que esse traste, feito mau selvagem, não voltou às origens como tu previas. Eu digo-te: esse bom selvagem nunca existiu nesta merda de mundo. Lá na Hélade percebemo-lo bem. E procurámos demonstrá-lo. Está tudo documentado.

Neste tempo, os maus selvagens estão ao virar de cada esquina. Não me esqueço de que um betinho cobardola se armou em carapau de corrida e me acusou de ser homossexual. O asqueroso disse, depois de uma reunião com mulheres do seu partido, que eu gostava de outros colos. Chamou-me, com todas as letras, bichona. Bandalho.

Rousseau — A liberdade primeiro. Liberdade de ser, liberdade de amar. Não percebo a indignação.

Sócrates — A indignação é pela verdade. Não tenho essa orientação. Eu sei que lá na Hélade havia invejas da minha amizade com Alcibíades, mas aqui sempre fui heterossexual. Não condeno quem se inclina para o mesmo sexo e até já o fixei em lei. Mas o aldrabão só queria tirar dividendos políticos, deturpando a minha imagem nos demos cá do burgo. O que merece tal camafeu?

Rousseau — Temos de continuar a acreditar na recuperação do bom selvagem. Fazemos-lhe um contrato de boas maneiras.

Sócrates — Contrato de boas maneiras uma merda. O coirão devia ser ostracizado. Boca de xarroco. Já bebi uma vez a cicuta, mas não volto a fazê-lo. Não gostei mesmo nada. Nadinha. Agora, quem o tentar fazer não perde pela demora: vai levar o troco. Nem aquele bárbaro da Germânia fica sem resposta. O filho da mãe andava todos os dias a bufar para os jornais notícias sobre o meu país. Que Portugal era uma lixeira, que os portugueses eram lixo. Que tudo era PIGS. O bronco queria pôr-nos a pão e água. E está a conseguir. Estupor.

O coscuvilheiro é tão inculto que não sabe que foi o grande Ulisses que fundou Lisboa, antes Ulisseia, e que por aqui deixou os seus genes plantados. E só não tirei os punhos de renda há mais tempo por consideração para com a chefe desse estupor, que sempre apreciou a minha filosofia. E quem sabe se outros predicados não sujeitos a divulgação pública.

Rousseau — Sendo assim, também não deve saber que daí vem muito do génio marítimo dos portugueses e que eles inventaram, por mares nunca navegados, a globalização.

Sócrates — Boa merda. Essa não engulo. Que se foda a globalização. Primeiro serviu para sacar a pimenta lá nas Índias à má fila: «Ou me dizes onde guardas a droga ou levas com uma dose de tortura; ou me passas para cá o material ou levas um balázio nos cornos.» Agora serve para roubar à escala global: «Os mercados assim, os mercados assado.» Badamecos.

Rousseau — Mas, ó Sócrates, vejo-te muito ressabiado. Violência gera violência. Quem com ferros mata, com ferros morre. Olha o que aconteceu ao camarada Robespierre. Temos de negociar. Eu sempre disse: contrato social.

Sócrates — Que contrato social, companheiro? Tu continuas a ser muito ingénuo. A gente assina com toda a boa vontade o contrato social e depois o que acontece? Os filhos da puta que mandam, mandam-no logo às urtigas. Combinamos salários, cortam-nos. Tiram uma parte dos rendimentos para recebermos uma pensão estipulada e, de um dia para o outro, sacam o que estava contratado. Canalhas.

Rousseau — Mas desculpa se mal pergunto: não foram os demos que lá os puseram?

Sócrates — Os demos, os demos, sempre os demos. Pois foram. Mas por acaso eles já saíram da caverna? Digo-te que não. Lá continuam prisioneiros. Há séculos. Presos na escuridão, só veem sombras que tomam pela realidade. Nunca viram a luz. Decidem de acordo com as imagens que lhes projetam. Umas vezes de uma maneira, outras vezes de outra. Anjinhos.

Quando alguém quer trazê-los para a luz, revoltam-se. Olha o que me fizeram na velha Atenas. Chamaram-me charlatão. Acusaram-me de trair a pátria. Tiraram-me a vida. Pulhas. Não voltam a fazê-lo. Não me sujeito mais ao seu voto.

Rousseau — Então temos de trazê-los para a luz, para o conhecimento.

Sócrates — Não querem. Que palavra não percebes? Gostam de ser iludidos. Foram na cantiga do bandido. O PEC IV era austeridade a mais, não era? E a que têm agora é menos, não é? Ingratos. Foram fodidos com todas as letras por demiurgos populistas. Elegeram para o palácio rosa um estratego sem qualidade, mesquinho, vingativo. Fez-me a vida negra. Lixou-se e continua a lixar-se para o país. Borra-botas. Destruidor da República.

«Quanto a mim, a minha opinião é esta: no mundo inteligível, a ideia do bem é a última a ser apreendida, e com dificuldade; mas não se pode apreendê-la sem concluir que ela é a causa de tudo o que de recto e belo existe em todas as coisas. No mundo visível, ela engendrou a luz; no mundo inteligível, é ela que é soberana e dispensa a verdade e a inteligência; e é preciso vê-la para se comportar com sabedoria na vida particular e na vida pública», disse-o a Glauco. Platão escreveu-o na República, Livro VII. E tu que dizes?

Rousseau — Cito Glauco: concordo com a tua opinião até onde posso compreendê-la.

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