Há, pelo menos, um luxo que ainda não nos tributam: a luz do sol. E também o mergulho nas águas, mais ou menos poluídas, do oceano continua, por enquanto, livre de portagens. O advérbio «ainda» não surge por acaso. Num tempo em que tudo parece convertível em mercadoria, nada é definitivo. O que hoje é um direito pode amanhã transformar-se num privilégio. É a migalha concedida à plebe: o pão e o circo da nossa época. Até ver.
Também em 1975 houve um Verão Quente. Não apenas pela temperatura do ar, mas pelo incêndio das consciências e pelo ardor da ação cívica. Uma hidra de contornos difusos, chamada PREC, prometia um sol igual para todos, enquanto preparava um longo inverno siberiano. De Norte a Sul, ergueram-se os portugueses. Resistiram. Lutaram. E venceram.
Hoje desenha-se um novo PREC, de sinal ideológico inverso, mas igualmente hostil à liberdade. Não promete utopias revolucionárias; impõe, passo a passo, uma normalidade resignada. Rouba-nos, silenciosamente, o direito à felicidade, à esperança e à dignidade. Edifica um inverno moral sobre os alicerces da apatia e da indiferença.
O calor que arrasta multidões para as praias é o mesmo que embala o adormecimento coletivo. Enquanto os corpos procuram o alívio das ondas, as consciências deixam-se embotar. Este pode ser um verão de evasão, quando deveria ser um verão de despertar.
Precisamos de um Verão de salvação. Um verão em que o calor não se esgote na pele, mas reacenda a alma; em que a luz não ilumine apenas as praias, mas também a coragem; um verão nascido da vontade firme de não desistirmos da liberdade, da cidadania e de nós próprios.
Como em 1975.