O médico que a serra não esqueceu
O meu avô era um trabalhador manual. As suas mãos, guiadas pela cabeça, eram o seu ganha-pão. Artífice da madeira, fazia com as mãos aquilo que os seus olhos imaginavam. Mas a dureza da madeira foi-lhes deixando marcas: calos que testemunhavam anos de trabalho. Um desses calos infetou-se, causando-lhe dores intensas e limitando-lhe a capacidade de trabalhar. Naquele tempo, numa aldeia serrana, não havia médicos. As maleitas tratavam-se com os remédios da terra, que nem sempre resultavam.
Certo dia, enquanto carregava um móvel com a ajuda do filho mais velho, ainda um rapazote que já colaborava na oficina, este bateu-lhe inadvertidamente no calo infetado. A dor foi tão violenta que o avô exclamou:
— Se tivesse aqui uma espingarda, dava-te um tiro!
O filho respondeu, com uma serenidade surpreendente:
— Compreendo, pai, mas isso não resolvia nada. Porque não procura a ajuda de um médico?
Mal as palavras foram ditas, o avô tomou a decisão. Deslocou-se a Alcoutim, onde, no pequeno hospital concelhio, trabalhava o doutor João Dias: médico, cirurgião, diretor e, quem sabe, até enfermeiro. Era um verdadeiro clínico de outros tempos. Embora fosse médico de clínica geral, era também cirurgião, anestesista e tudo o mais que fosse necessário, ao contrário da medicina atual, tão especializada que, por vezes, parece limitar-se a um único centímetro do corpo humano. Tratava tudo, da ponta dos cabelos à ponta das unhas dos pés.
O doutor João apesar da sua especialidade, era um verdadeiro "serrenho". Oriundo da freguesia de Odeleite,, filho de agricultores médios, cursou medicina como o seu irmão Francisco, médico no concelho vizinho. Ali se fez homem e manteve a relação de proximidade quase familiar com todos.
Foi no seu hospital que a minha avó retirou um sinal do rosto, um vizinho foi operado a uma hérnia e o meu avô tratou do calo infetado.
Durante o tratamento, o doutor João Dias teve de fazer uma pequena intervenção para extrair o calo. Fê-la à moda antiga, sem anestesia — nem sequer daquelas que, nos filmes de "western", vinha numa garrafa. A dor foi tão intensa que o avô não conseguiu conter um grito e, ao mesmo tempo, exclamou:
— C*go-me no "Deus" da Espanha!
O médico, sem perder a calma nem o bom humor, respondeu:
— Pois c*gue-se lá nesse da Espanha, mas esteja quieto.
Passado o aperto, o avô regressou a casa com o problema resolvido, embora tivesse ficado um pouco traumatizado. De vez em quando, talvez como forma de catarse, recordava aquele episódio. Foi assim que tomei conhecimento desta história.
O doutor João continuou a realizar as suas intervenções cirúrgicas, conquistando uma fama que ultrapassou a pequena vila onde trabalhava e as fronteiras do concelho. Chegou mesmo a ser notícia de jornal. Contudo, aquele médico perdido numa pequena terra da raia algarvia nunca deixou de ser um homem simples, generoso e profundamente dedicado aos seus doentes. Não recusava tratamento a ninguém, fosse qual fosse a sua condição económica ou o problema que apresentasse.
Quando eu era menino e moço, e o doutor João já era um homem de meia-idade, correu da serra até ao litoral a notícia mais inesperada: o médico do povo tinha morrido repentinamente, logo após o almoço, enquanto descascava uma laranja.
Como acontece tantas vezes nas pequenas comunidades, surgiram os mais variados rumores. Chegou mesmo a dizer-se que teria sido envenenado, quem sabe pelo colega do outro lado da fronteira, a quem alegadamente "roubava" muitos doentes.
Essa hipótese nunca passou de especulação popular. O que ficou foi a tristeza profunda de toda aquela região, que tinha pelo doutor uma enorme admiração. Essa estima ficou bem patente na multidão que acorreu ao seu funeral. A serra entristeceu. As aldeias despovoaram-se. Alcoutim encheu-se de gente para se despedir do médico do povo. E o meu avô também lá foi, com o seu calo há muito sarado e sem necessidade de voltar a proferir impropérios para lá da fronteira.
Outro médico ocupou o seu lugar. Mas aquele pequeno hospital nunca mais voltou a ser o mesmo. Deixou de ser o lugar onde o povo encontrava resposta para tudo, desde uma simples constipação até uma cirurgia.
O meu avô ficou sem o calo. A serra ficou para sempre sem o seu médico.