Dragão Azul

Vendedores de Banha da Cobra

Texto de índole política que exprime a opinião do autor na observação dos novos fenómenos da extrema direita

No meu tempo, não havia aldeia nem vila que não celebrasse a sua feira anual. As feiras eram muito mais do que simples mercados: eram o coração pulsante das comunidades, um ponto de encontro onde o comércio se misturava com a festa. Trocavam-se produtos, mas também histórias, afetos e ilusões. Havia os comes e bebes, os carrosséis, os saltimbancos, o circo com as suas pantominas e os seus vertiginosos saltos mortais. E, como não podia deixar de ser, havia os vendedores de sonhos. Entre eles destacavam-se os célebres vendedores de banha da cobra. Com uma pomada milagrosa curava-se tudo: o flato, a sarna, os bicos-de-papagaio e todas as mazelas que a vida teimava em acumular.

As feiras tradicionais desapareceram quase por completo. Têm a sua certidão de óbito passada. Os vendedores da verdadeira banha da cobra foram vencidos pelos avanços da medicina e pelo triunfo da ciência. Mas os vendedores de ilusões, esses, sobreviveram. Malgrado as crises e as mudanças dos tempos, continuam entre nós. Como camaleões, adaptam-se a todas as paisagens e confundem-se com todos os cenários. A sua mercadoria permanece a mesma; apenas mudam a embalagem e o discurso.

Hoje, vendem a sua «banha da cobra» nos mais variados domínios, embora seja na política que encontram terreno mais fértil. Entram-nos em casa sem pedir licença, através das janelas luminosas do mundo virtual. São figuras bem reais. Possuem formação em marketing ou, para dizê-lo sem rodeios, são especialistas na arte de seduzir e enganar, envoltos no manto diáfano da manipulação da opinião.

Seria necessário escrever um tratado para enumerar todos os casos. Ainda assim, não resisto a mencionar um exemplo que considero digno de estudo. Trata-se de um vendedor de banha da cobra dos nossos dias: André Ventura. Inventou uma fórmula que promete libertar-nos da austeridade, do desemprego, dos assaltos do fisco, dos dias cinzentos e das noites de insónia. A sua pomada chama-se «fascismo», à falta de designação mais apropriada.

Não se trata do fascismo histórico que emergiu entre as duas guerras mundiais, alimentado pela miséria, pelo desemprego e pelo desespero coletivo. Este é um fascismo diferente, sustentado pelo descontentamento dos que raramente conheceram a fome, dos que vivem de barriga cheia mas se sentem permanentemente lesados. Basta uma dose dessa nova panaceia e desaparecem do horizonte mental a corrupção, real ou imaginada, a incompetência dos governantes e todas as angústias do quotidiano. A pobreza, curiosamente, surge como um problema secundário, como se não fosse, tantas vezes, a sombra inseparável dos regimes autoritários.

Esta panaceia desempenha a mesma função de um placebo: atua sobretudo na imaginação do doente. Contudo, por mais talentoso que Ventura seja na arte de vender ilusões, convém não esquecer que o mundo está cheio de incautos. E, quando os incautos se tornam multidão, a pantomina transforma-se em tragédia.

Se embarcarmos nesta terapêutica, corremos o risco de acreditar no espetáculo e dar um salto mortal em direção a uma longínqua Idade das Trevas. Na minha juventude, essa ameaça parecia apenas uma sombra perdida no horizonte. Hoje, porém, já se distingue com inquietante nitidez na claridade do próximo amanhecer.

Senhor, onde falhámos? Na educação? Na formação de cidadãos livres e esclarecidos? Ou será que o ser humano é menos educável do que gostaríamos de acreditar? Ou será, afinal, que a estupidez, como observou Einstein, constitui uma das características mais persistentes da humanidade?

E como se sentirão, onde quer que estejam, aqueles homens esclarecidos que, após a devastação da guerra, procuraram erguer um mundo assente na liberdade, na igualdade e no bem-estar? Que pensarão ao ver as sombras regressarem, lentamente, pelos mesmos caminhos por onde julgávamos tê-las expulsado para sempre?

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