Dragão Azul

Quem é o pai da criança'

Quem é o pai da criança? (que ainda não nasceu)

— Comadre, a Rosalina está prenha.

— A Rosalina do Zé da Horta? Custa-me a acreditar, comadre Virgolina.

— Nã diga isso, que me ofende, comadre Laurentina. Nã sou nenhuma mentirosa. Andou a tentar esconder, mas a barriga, sempre a crescer, é a prova provada. Sendo um pau de virar tripas, ainda se nota mais.

— Desculpe, comadre, a minha desconfiança. Nunca reparei. Nã tem a ver consigo. O que me faz “fornicoques” é como isso pode ter acontecido. Não lhe conheço nenhum homem a rondar a porta. E “tamém” acho que não pode ser por obra e graça do Espírito Santo.

— Fosse santo ou pecador, algum diabo lhe meteu fedelho ou fedelha na barriga. E, pelo que sei, comadre, ela não se descose nem com o pai nem com a mãe. O pai até já lhe prometeu uma surra, mas não adiantou.

— Então quem lhe fez o trabalho nã pode ser nomeado. Deve ser algum figurão.

— Isso não sei, mas tenho as minhas suspeitas. Não sei se diga.

— Diga, diga, diga, comadre, sem medo. Sabe que eu sou fechada como um túmulo.

— Olhe, só aqui entre nós, para mim foi o descarado do irmão gémeo. Não é que eu estivesse presente quando lhe saltou pra cima, e não posso jurar. O que me parece é que os vejo muito amigos, sempre juntinhos. Para onde vai um, vai o outro. Festinha “praqui”, festinha “prali”, e quando dão por ela acontece o mesmo que ao macaco que “xaringou” a mãe.

— Credo, cruz canhoto, comadre Virgolina! Isso é que não me entra cá na tola. São manos, sempre foram unha com carne. É normal que se deem bem. Não diga isso, nem a brincar.

— Ah, digo e redigo. Essas coisas sempre aconteceram. A minha filha Juliana anda a ler um livro lá pra escola. Chama-se Os Maias, escrito por um tal... como se chama... Queiroz... Eça de Queiroz. Aquilo é uma pouca-vergonha entre irmãos. Ainda por cima, gente fina e educada. Unha com unha, carne com carne.

— Romances, nem sei bem, que eu não sou de ler, são lérias para nos endrominar. A Rosalina sempre me pareceu uma moça séria e muito recatada. Ainda se fosse com o primo-irmão, que nos bailes a anda a “rapiocar”, vá que não vá...

— Ó comadre, nã seja “ingena”. Quanto mais recatada, mais sonsa. Até pode ser o tal primo tamém. Quem sabe se nã é ninfomaníaca?

— Ninfa quê, comadre? Nunca óvi essa palavra.

— Chama-se isso às mulheres que nunca estão satisfeitas com a coisa. Quer dizer, acabam uma e já querem outra. Parece que é doentio.

— Não me diga isso, comadre, que me arranho toda.

— Não me diga que também é dessas?

— Tarrenego mafarrico! O meu homem é que, se calhar, tamém é ninfo qualquer coisa. Por sua vontade, estava sempre com as pernas em cima das minhas. Não é que não goste, mas nem tanto ao mar, nem tanto à terra. Além de gostar ou não, a porra é que já tenho cinco filhos. Já usei o que a minha mãe me ensinou para não emprenhar. Há só uma coisa que resulta: é tirar o coiso antes que saia a peçonha. Fica mais bravo que um cão danado... Paciência.

— Tá tudo mal dividido. Já o meu anda sempre cansado. Cada qual tem a sua pena. Mas, voltando à vaca fria, ou antes, quente, o certo é que deve tar quase a parir e só ela sabe quem é o pai da criança. Se é que sabe...

— Seja quem for, comadre Virgolina, ainda nem estou em mim. Uma moça tão recatada, que mais parece uma mosca morta, a rebolar-se com um marmanjão. E digo-lhe mais: não há aqui na terra moça mais religiosa. Não falta a uma missa. Sempre a confessar-se e a comungar. E o senhor padre Pedro Paulo sempre a nomeá-la como exemplo de boa ovelha.

— E o que é que isso quer dizer, comadre Laurentina? Não levante falsos testemunhos. É pecado.

— Que falsos testemunhos, comadre?

— Com essa “converseta” até parece estar a querer dizer que o pai da prenda que a Rosalina traz na barriga é o senhor padre. O bom pastor deve é proteger as suas ovelhas dos lobos maus. No segredo da confissão, deve ser o único que, com a Rosalina, sabe do segredo.

— Nunca me passou pela cabeça o que diz. Mas não ponho as mãos no fogo por ninguém, e os padres não são santos.

— Nisso concordamos, comadre Laurentina. Os padres são homens como os outros. E não estão capados. E até lhe digo, aqui entre nós, que ninguém nos ouve, que o senhor padre Pedro é um bom pedaço de homem. Às vezes, em noites de insónias, quando o meu homem ressona mais que o porco na pocilga, dou comigo a pensar no senhor padre. Até me sobem os calores.

— Nós somos assim. Não estamos contentes com o que temos.

— Pois sim, comadre Virgolina, mas estar a meter o padre ao barulho parece-me má-língua. Embora a minha filha, que é muito “lida”, me tivesse dito que leu outro romance do senhor Queiroz, O Crime do Padre Amaro, em que um padre engana uma moça de família. A minha Amélia até a compreende, porque tamém se perdia pelo padre Amaro. Mas tamém acha que o padre Pedro Paulo não lhe fica atrás.

— Esse tal Queiroz, que não conheço nem vi, nem gordo nem magro, parece que escreve coisas muito esquisitas. Veja lá, comadre, se a sua filha, com essas lérias, não lhe aparece prenha em casa. Quem sai aos seus não degenera.

— Como assim?

— Então a comadre não disse que pensa no padre Pedro?

— Disse, só em pensamento. Mas garanto que só o meu homem põe as pernas em cima das minhas. E só foi depois de bem conversados.

— Maus pensamentos tamém são pecado. E, se há mais pessoas a pensar nele, não me admiro que a Rosalina, uma moça sem compromisso, se enrolasse com o padre.

— Ora, comadre, até pode ser. O que sabemos é que está prenha, e bem prenha. O que vai dar muito que falar é quem será o pai da criança. E, se é o padre, é abençoado.

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