Sou estátua. De pedra, de bronze ou de outro material. Pouco interessa. Sou como quiseram que fosse. Ninguém me pediu opinião. Sou como sou e aceito. Que posso fazer? Não escolhi nascer, nem o rosto que me deram, nem o local que me destinaram para viver, tantas vezes à chuva, ao vento, ao sol tórrido, tantas vezes sujeita ao desrespeito da passarada, que me confunde com uma retrete. Mas percebo e não os condeno. Não o fazem por mal, nem com qualquer intenção.
Quem não perdoo são os que se dizem humanos, mesmo tendo em conta que são muitas vezes bafejados pela estupidez, filha da ignorância, assumida como virtude.
Resolveram agora atacar a nossa «espécie» como responsável por todos os males do mundo. Não somos, nem nunca fomos. O mundo é como é. Não fomos nós que o criámos, nem aquele a quem damos corpo, meio corpo ou apenas cabeça. Esses não passam de meras peças de um complexo puzzle. Foram imortalizados em estátua por se terem distinguido na sua passagem pela Terra, umas vezes para o bem, outras para o mal, de acordo com os pontos de vista de quem hoje observa.
O que fizeram ou deixaram de fazer tem de ser enquadrado nos tempos em que viveram. O que hoje é errado, ontem era certo. As mentalidades não são hoje o que eram há centenas ou milhares de anos. Evoluíram, mudaram, e ainda bem, como agora se diz no discurso político.
A escravatura, por exemplo, era, na Antiguidade, assumida como algo natural. Sendo a guerra a continuação da política por outros meios, segundo o pensador militar Clausewitz, tornar escravos os vencidos era comum. Todos o faziam. À luz da mentalidade actual, está errado, mas não o estava nessa época. E, durante a expansão marítima dos séculos XV e XVI, os europeus escravizavam africanos, mas quem lhos fornecia eram outros africanos que os aprisionavam nas suas guerras internas. Com naturalidade. Não estou a justificar nada. Estou apenas a constatar.
E o racismo, o ódio ao diferente, o que temos nós, estátuas, a ver com isso? Nada. Há, dizem as almas que se julgam puras, estátuas que imortalizam figuras sinistras ligadas à exploração dos seus semelhantes e que são símbolos do mal. Decerto que houve figuras assim, no contexto em que viveram. Mas que culpa temos nós, estátuas, que as representamos?
E mesmo que o tenham sido, aos olhos da actualidade, que adianta descarregar a fúria sobre a pedra que as representa? Vai isso mudar o passado? Na minha humildade de estátua, acho que não.
O passado não se pode mudar, nem apagar. Foi o que foi. Inteligente é aprender com ele para corrigir o que esteve errado. Imbecil é misturar o passado com o presente e agredir esse passado, como se isso mudasse o presente. O que o passado deixou é a sua matriz.
Os Jerónimos e o Convento de Mafra, por exemplo, são resultado de riquezas conseguidas à custa de outros povos, de muito suor e de muito sacrifício. Fazer o quê? Demoli-los? Mais recentemente, no Estado Novo, construiu-se a Ponte Salazar, hoje Ponte 25 de Abril. Era um regime despótico e autoritário? Era. E então, vamos deitá-la abaixo para exorcizar um tempo que já passou? Voltamos a atravessar o rio de canoa, gritando slogans contra esse tempo?
Sou estátua. O meu pai chama-se escultor. Fez-me como marco da História. Que culpa tenho? Vivo onde me colocaram. Os humanos passam por mim como cão por vinha vindimada. Muitos, no seu afã, não sabem quem sou, nem porque aqui estou. Olham para mim como um simples adorno da paisagem.
Foi preciso que uma qualquer fagulha incendiasse a fúria dos antirracistas. Ignorantes, fanáticos, tão ou mais racistas do que todos os outros. A estupidez que os move não os deixa perceber que, ao retalharem-me ou derrubarem-me, praticam um acto de ódio ao outro. E quem o faz a uma estátua inerte e inofensiva, ou à pessoa que ela simboliza, mais facilmente o fará a um seu semelhante. Basta surgir a oportunidade.
Bem disse o meu companheiro Einstein, também ele no reino da estatuária: «A estupidez humana é a única certeza que existe.»