Dragão Azul

A arte do truca truca

A Arte do Truca-Truca

Um deputado de nome Morgado, em 1982, defendeu na Assembleia da República que o sexo servia apenas para a procriação. Natália Correia respondeu-lhe de imediato, em forma de poema.

Já que o coito – diz Morgado –
tem como fim cristalino,
preciso e imaculado,
fazer menina ou menino;
e cada vez que o varão
sexual petisco manduca,
temos na procriação
prova de que houve truca-truca.

Sendo pai só de um rebento,
lógica é a conclusão
de que o viril instrumento
só usou – parca ração! –
uma vez. E, se a função
faz o órgão – diz o ditado –,
consumada essa exceção,
ficou capado o Morgado.

(Natália Correia, 3 de abril de 1982)

Essa resposta inspirou-me este texto:

Não Leve a Sério o Morgado

Não leve a sério o Morgado;
se o coito lhe dá prazer,
faça-o, que não é pecado:
é assim que Deus quer.

Porque, se assim não fosse,
para haver procriação,
Deus inventaria outro modo,
que não a fornicação.

E no petisco sexual
a dama também manduca,
porque o direito é igual
na arte do truca-truca.

Use, pois, o instrumento:
essa é a sua função.
Não seja como o Morgado,
capado por devoção.

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