1945 (primeira parte)
No ano em que nasci, 1945, terminou a guerra que iria pôr fim, durante muitos anos, aos conflitos entre europeus, com reflexos em todo o mundo.
Dessa memória histórica ressalta a capacidade dos políticos europeus para esquecerem orgulhos e interesses e unirem esforços na construção de uma Europa de paz e progresso. Passados cerca de oitenta anos, os obreiros desse período áureo devem dar voltas no túmulo perante o que hoje se está a passar.
Neste pequeno país com pouca terra e tanto mar, a ditadura sobreviveu até aos anos setenta, à custa de muita repressão e de sangue inutilmente derramado. O ditador, com algum apoio de democratas europeus, manteve-se na cadeira do poder até dela cair de velhice. O resultado foram décadas de atraso económico e social para um país que desbravou oceanos. O resultado foi pobreza material e mental, deixando uma população analfabeta e dispersa pelo mundo.
Quem assistiu à madrugada libertadora de Abril, com exceção da minoria que apoiava o regime, respirou de alívio e acolheu a mudança de braços abertos. A maioria escolheu a democracia e a adesão à União Europeia como o seu futuro. Com altos e baixos, o país modernizou-se e procurou esquecer os quarenta anos de servidão. Esqueceu mal, porque não soube transmitir às novas gerações o espírito antifascista que a derrotou.
Hoje, fantasmas do passado de exploração e repressão, vestidos com novas roupagens, aqui e por toda a Europa, inimigos das democracias à mesa das quais cresceram e prosperaram, multiplicam-se como cogumelos venenosos, com o intuito de fazer regressar um passado de má memória.
É verdade que a História não se repete da mesma maneira, mas repete-se nas ideias e nas técnicas, embrulhadas em mentiras e falsas fantasias. E aqueles que sempre beneficiaram das benesses de um regime livre, embora imperfeito, escancaram as portas a um regresso a esse passado de ignomínia.
1945, o início da libertação da Europa dos seus piores demónios, está na mira dessa gente renascida. A nível internacional, as regras que permitiram oitenta anos de paz e progresso estão a ser esquecidas e desrespeitadas por dirigentes sem moral. Assunto que desenvolverei na segunda parte.